SerConsciência
Entre todas as infinitas possibilidades, escolhemos viver uma realidade e, ao escolher, a criamos. Por sermos a consciência que escolhe a realidade que vivemos, podemos criar novos roteiros para a nossa vida. Aqui você vai encontrar sugestões para fazê-lo.
Amor, a suprema energia do universo
“Somos o que fazemos e, no momento em que paramos de fazer alma, somos menos do que poderíamos ser.”(Sardello, Love and the Soul)
Em uma conversa com Renée Weber (O Paradigma Holográfico e outros paradoxos), o físico David Bohm explicita que a razão pode ter duas fontes, uma delas sendo a memória que é mecânica e a outra que flui a partir do insight, operando como um instrumento da inteligência.
Ele diferencia a consciência como pensamento do insight, afirmando que o ato de pensar – ou a mente tridimensional – produz uma energia residual que é o arcabouço do pensador, arcabouço este formado pelas experiências não digeridas, não assimiladas pela mente, e que ficam armazenadas como memórias e padrões de hábitos esclerosados. O pensador que somos é um átomo limitado pela morte, que consome muita energia para permanecer coeso ao longo do tempo.
Nossas experiências infantis ficam profundamente impressas na amídala, uma das estruturas importantes do nosso cérebro límbico, diretamente conectada com a parte mais antiga do cérebro, o tronco encefálico. Como foco central de muitos sensores emocionais, a amídala age como um editor, que seleciona as experiências ameaçadoras e as arquiva para futuras avaliações. E ela faz isto até os três anos de idade, quando este arquivo é mielinizado, isto é, fixado, tornando-se a fonte permanente de nossas reações e hábitos.
O neurocientista Paul MacLean descreveu o cérebro humano como formado por três camadas evolutivas distintas, a saber: (a) o cérebro primitivo ou reptiliano, basicamente responsável pelas funções sensório-motoras, determinando nossas reações instintivas ao meio interno e externo; (b) o cérebro límbico ou emocional-cognitivo, responsável pelas emoções e pela memória, trazendo à cena a relação com outras criaturas; e (c) o neocórtex ou verbal-intelectual, precursor da fala e do pensamento, responsável pelas habilidades evolutivas avançadas, o intelecto, a imaginação e a criatividade.
Já nascemos com as bases físicas destes três cérebros, formadas durante o desenvolvimento intra-uterino. Mas a natureza houve por bem acrescentar um quarto cérebro aos três anteriores, o neocórtex pré-frontal, cuja base física começa a se formar depois do nascimento e é responsável pelo desenvolvimento das qualidades especificamente humanas: o amor por si e pelos outros.
Tendo surgido apenas há cerca de 40 mil anos, o desenvolvimento funcional deste quarto cérebro ainda é grandemente subdesenvolvido, o que faz com que seja “continuamente dominado e invalidado por aqueles sistemas muito antigos em que se apóia – sistemas que funcionam amplamente através do instinto em vez da inteligência”, escreve Joseph Hilton Pearce, em The Death of Religion and the Rebirth of Spirit [A morte da religião e o renascimento do espírito].
O desequilíbrio entre as forças dos cérebros mais antigos e deste novo cérebro encontra expressão nos contínuos rompantes de violência, em que as arcaicas habilidades de sobrevivência predominam e se sobrepõem às mais recentes habilidades de convívio social pacífico, baseadas no amor e no altruísmo. Em Memória das Células, Paul Pearsall escreve que “nosso cérebro superior, mais racional, é frequentemente tomado como refém pelo tronco cerebral, o que resulta numa redução de qualquer inteligência emocional que o cérebro herde do coração.”
Ao utilizarmos as habilidades deste quarto cérebro para reforçar nossos instintos de sobrevivência impressos profundamente em nossos cérebros mais arcaicos, permitindo que os condicionamentos e as experiências da primeira infância ditem nossa visão da realidade, faremos tudo para manter o que é familiar e antigo, temendo qualquer coisa nova.
Mas o insight, diz Bohm, tem o poder de dissolver os registros deste arquivo, removendo as informações memorizadas que bloqueiam o fluxo de nossa energia, permitindo que ela flua novamente através de nós. Então, “a consciência torna-se um conduto alinhado com a energia do universo, irradiando-a para o mundo humano e das criaturas, sem distorcê-la ou desviá-la de seus próprios objetivos auto-centralizados.”
Mais do que isto, o insight é capaz de atuar diretamente sobre a matéria do cérebro, mudando não apenas o conteúdo, mas o próprio ato de pensar. Bohm concebe o insight como uma inteligência além de qualquer uma das energias que possam ser definidas pelo pensamento. É a suprema inteligência, “capaz de reordenar a própria matéria estrutural do cérebro, que serve de base ao pensamento, de modo a remover a mensagem que está causando a confusão, retendo as informações necessárias e deixando o cérebro aberto para perceber a realidade de uma maneira diferente.”
O insight, neste sentido, tem o poder de fomentar o desenvolvimento pleno do quarto cérebro, fazendo com que as qualidades de amor e altruísmo possam se manifestar plenamente na vida e na cultura humana, tornando-nos realmente os seres de luz que somos.
Como podemos fazer isto? Desenvolvendo um olhar amoroso e uma ação baseada na inspiração divina.
A antiga sabedoria havaiana também afirma que a experiência é ditada por duas leis apenas: a inspiração divina ou a memória arquivada na mente subconsciente. Entendendo que as memórias não são impressões ou registros pessoais, mas programas impressos na mente coletiva, todos os problemas que surgem destas memórias reprisadas do passado são apenas mais uma oportunidade para transformá-los.
Sentir e agir a partir das memórias reprisadas conduz ao erro e às aflições humanas. Para modificar este estado de coisas, precisamos limpar nossa mente das memórias tóxicas e criar novamente o vácuo, abrindo espaço para a manifestação da inspiração divina, ou do insight. O método havaiano conhecido como Ho’oponopono (http://www.hooponopono.org) é a ferramenta mais simples que eu conheço para limpar os pensamentos e esvaziar as energias tóxicas, à disposição de qualquer pessoa. Um processo de arrependimento, perdão e transmutação, consiste basicamente em uma petição para que a energia do amor esvazie e substitua as energias tóxicas.Precisamos romper com o domínio da mente e retornar ao caminho do coração, a fonte original do amor e do altruísmo, para descobrirmos a verdadeira natureza do que significa ser humano. Como o principal gerador de energia informativa, o coração não cessa de transmitir os padrões de energia que regulam os órgãos e células do corpo inteiro, escreve Pearsall. “Devido ao código do coração e das memórias celulares com as quais ele lida, cada célula de nosso corpo transforma-se numa representação holográfica ou completa do coração vigoroso.”
O coração é o ponto de encontro do sistema complexo formado pela interação entre ambiente, corpo, alma e mente. Formando um campo de energia que vibra a vida, este sistema complexo que somos como seres viventes têm, como todos os campos, uma organização interna que reformula continuamente seu potencial, de acordo com a nova informação que chega neste campo por meio da experiência geral. É isto que possibilita alterarmos o repertório original, introduzindo novas experiências e reações que escolhemos de modo consciente.
A energia do coração é a energia do amor. Mas não estamos falando aqui do amor como ele é expresso nos meios de comunicação de massa, o amor romântico, que está mais próximo de uma condição emocional intensa, que combina atração física, possessividade, controle, obsessão, erotismo e outras coisas mais. Estamos falando do amor que é incondicional, imutável e duradouro. Um fluxo incessante e contínuo, que não está em lugar algum e está em todos os lugares ao mesmo tempo, configurando o vazio pleno, que Bohm denomina de holomovimento.
A vacuidade leva à cessação da consciência como aquela que conhece, transformando-nos em um instrumento receptivo à inteligência divina, que então pode operar através de nós, irradiando-se para além das nossas vidas cotidianas. Nossas linguagens falharão em apreender a essência deste holomovimento, porque elas requerem a ação da mente pensante, que apenas opera por meio dos nossos condicionamentos.
Precisamos no silêncio mental, para que possamos abrir o coração para o vazio pleno, para a manifestação divina. O ruído intenso que nos cerca em um ambiente urbano, e que é reproduzido na nossa mente consciente por pensamentos incessantes, não permite que ouçamos o silêncio do vazio pleno, o som cósmico do fluxo de consciência, que se manifesta no vibrar do nosso coração.
O amor incondicional torna mais fácil aceitarmos as coisas que surgem na nossa vida. Ele é abundante no universo, mesmo que às vezes pareça estar ausente. Esta percepção apenas indica que nosso coração está fechado para ele. Quando abrimos nosso coração, o amor flui em abundância e facilmente.
Amar é um estado de ser. É um modo de se relacionar com o mundo caracterizado pelo perdão, pelo cuidado e pelo apoio. Quando conseguimos eliminar os bloqueios que as memórias representam e ampliar o foco limitante que a razão lança sobre uma situação, o amor nos possibilita reconhecer o contexto maior e compreender a relativa insignificância da maioria das situações nas quais nos encontramos, pois o amor sempre lida com a totalidade.
Muitas vezes nomeamos esta habilidade de enxergar o contexto ampliado como intuição. A intuição vem do coração e nos torna capazes de compreender instantaneamente uma situação, sem necessitar de uma elaboração mental. Nós sabemos, porque sentimos. E sentimos com o coração. E quando amamos de verdade, liberamos endorfinas no cérebro que nos deixam felizes. Quando agredimos ou acusamos alguém ou alguma coisa, liberamos adrenalina, que produz tensão em lugar de felicidade.
Tudo que precisamos fazer para sentir amor é liberar os sentimentos de desvalor, que aprisionam a auto-estima, e liberar o ressentimento que nos isola. E para fazer isto, precisamos deixar de resistir aos sentimentos negativos, porque a resistência nos impede de vivenciar plenamente uma situação. Quando resistimos, quando reprimimos nossos sentimentos e nossas emoções, a energia da própria resistência se junta à energia emocional e começa a trabalhar contra nós.À medida que acolhemos e dissolvemos as energias até então suprimidas, percebemos que as situações da nossa vida mudam automática e miraculosamente. Não há necessidade de lutar com elas, pois você apenas estaria lutando consigo mesma/o. Aquilo com que você está lutando é sua própria projeção e você não tem como vencer, porque apenas fortalecemos aquilo contra que lutamos.
Então, em vez de ficarmos perguntando pela razão de algo estar acontecendo conosco, o que fizemos para merecer isto, buscando o que está errado conosco, podemos agradecer pela situação nos mostrar em que precisamos trabalhar. Uma situação que traz à tona sentimentos reprimidos é uma oportunidade para limpá-los, criando espaço para sentimentos positivos, de apreciação, de reconhecimento, de amor. Sentimentos que nos tornam plenamente humanos.
Monika von Koss em junho de 2010








