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O Princípio Feminino na cultura humana>>

A biologia humana é, essencialmente, uma biologia cultural. Em Amar e Brincar, Humberto Maturana explica que, “nós humanos existimos na linguagem, e que todo o ser e todos os afazeres humanos ocorrem no conversar [...] que é o entrelaçamento do emocionar com o linguajear”.

O que caracteriza a cultura humana é a convivência em um ambiente linguístico. Os grupos humanos convivem em um ambiente definido pelas conversas cotidianas, as palavras estando em íntima conexão com a emoção que as evoca e que elas expressam. Toda ação humana traduz uma emoção que a motiva. Mesmo as ações mais automáticas ou repetitivas são oriundas de um estado emocional que as define. Se nós humanos existimos no conversar, isto significa que todas “as mudanças culturais acontecem como modificações das conversações nas redes coloquiais em que vivem as comunidades que se modificam”, afirma Maturana.

Vamos nos voltar um pouco para nossos ancestrais remotos, pequenos grupos de pessoas convivendo em um universo linguístico. Elas conversam a respeito do mundo em que vivem, sobre aquilo que ocorre fora delas. Elas também conversam sobre as suas experiências emocionais, o que acontece no seu interior. Partilham suas experiências, relacionam o que acontece fora com aquilo que sentem e, a partir destas conversações, surge uma concepção coletiva do mundo, a cultura.

Durante o longo período da formação inicial da cultura humana, que definimos como pré-histórico ou Idade da Pedra, o centro aglutinador destas pessoas eram as mulheres. Pertencer a um grupo pressupunha ter nascido de uma das mulheres do grupo, que cuidavam da prole, dos velhos, dos doentes. Isto já foi chamado de ‘matriarcado’, um termo incorreto, pois nada indica que as mulheres tinham ou exerciam o poder sobre os demais. Elas eram a matriz do grupo, a base de uma organização social matrística, ou seja, centrada na mãe.

Estes agrupamentos matrísticos conviviam intimamente e seus membros eram totalmente dependentes uns dos outros e do ambiente em que se movimentavam. Predominava a consciência da interligação de toda a existência. O que caracteriza esta consciência matrística são os valores da participação, da inclusão, da colaboração, da compreensão, do acordo, do respeito e da co-inspiração. Uma consciência não-hierárquica, que incluía todos os seres em uma relação de participação e confiança – não de controle e autoridade. Uma consciência representada pela figura feminina – a Deusa.

A emoção que subjaz a esta consciência é o amor. Cada elemento do grupo era integrado em uma co-existência harmônica de plena aceitação, através da experiência do amor materno, vivido no encontro corporal de confiança mútua entre mãe e criança e reproduzido por todos os membros do grupo. Isto não significa que não houvesse conflitos, mas eles eram abordados a partir de um contexto de coexistência social regido pelo respeito mútuo.

A cultura da Deusa

A cultura em que predomina a Deusa é matrística, ou seja, a mãe é a figura central em torno da qual gira o conversar característico da cultura humana primordial. A vida relacional da cultura matrística é regida pelas características do princípio feminino. A figura da deusa é uma abstração desta harmonia sistêmica do viver, em que todos os aspectos da vida eram plenos de sacralidade. Ela representa o dinamismo harmônico da natureza, evocado pelas fases da lua, pela metamorfose dos insetos, pelas peculiaridades da vida das plantas e dos animais, abarcando a vida e a morte em um ciclo contínuo.

Nos grupos que praticavam a horticultura, os campos de cultivo eram coletivos. Todos colaboravam nas atividades diárias, que eram sagradas. As aldeias se localizavam em espaços abertos, integrados ao meio ambiente. Os festivais celebravam o sagrado da vida cotidiana, em harmonia com a contínua transformação da natureza. Havia tempo disponível para contemplar a vida e viver o mundo sem urgência.

Esta cultura matrística foi substituída pela cultura patriarcal, por meio de uma modificação no espaço psíquico em que viviam e se desenvolviam as crianças. De acordo com Maturana, quando surge uma nova configuração do emocionar, ela transforma o linguajear e, consequentemente, as conversações que acontecem no contexto grupal/familiar. As crianças aprendem este emocionar simplesmente por viverem nele e o perpetuam, surgindo uma nova cultura.

À medida que o amor e o respeito mútuo que está na base da colaboração, característica da vida matrística, foram substituídos pelo “emocionar que constitui a apropriação”, o patriarcado foi ganhando terreno, até destruir e substituir amplamente a cultura da Deusa.

O Patriarcado

O emocionar que está na base da cultura patriarcal é o da apropriação. Os campos deixam de ser coletivos e cultivados em colaboração livre e respeitosa, sendo apropriados por alguns elementos do grupo, assim como os frutos do trabalho neles realizados. A emoção implícita na divisão do trabalho é a obediência. A consciência patriarcal se caracteriza por um pensamento linear, em um contexto de apropriação e controle, sem observância das interações básicas da existência. A vida se baseia na apropriação, tornando-se legítimo estabelecer, pela força, limites que restringem a mobilidade dos demais em certas áreas, às quais eles tinham livre acesso antes da apropriação.

A cultura patriarcal valoriza a guerra, a competição, a luta, as hierarquias, a autoridade, a procriação, o crescimento, a apropriação de recursos e a justificativa racional do controle e da dominação dos outros por meio da força bruta e da apropriação da verdade. A perda do respeito por si e pelo outro destrói a identidade social e a dignidade individual de um ser humano.

Criando uma cultura neomatrística

Podemos participar na modulação da nossa história, vivendo como desejamos e não como deveríamos. Mas, para criarmos um mundo de paz, precisamos mudar nosso emocionar e nosso linguajear. Precisamos deixar de ‘lutar pela paz’ e praticar a paz em nossas ações, pensamentos e emoções cotidianas. Precisamos recuperar a igualdade colaborativa da vida e gerar um espaço psíquico em que predomina a cooperação não-hierárquica.

Para alcançar isto, precisamos mudar nossas conversações, o entrelaçamento de nossas emoções com nosso linguajear. Eis uma sugestão: tente pensar em uma palavra que expresse o mundo que você gostaria de criar e inclua esta palavra nas suas conversas cotidianas. E quando você a verbalizar, visualize a realidade desta palavra já concretizada para você e as pessoas com quem você está falando. Observe as mudanças que ocorrem no seu próprio emocionar-se e na reação emocional de seus interlocutores. E não desista, se no primeiro dia não surgirem mudanças visíveis. Às vezes, as mudanças que criamos em dimensões mais sutis necessitam de algum tempo para se materializarem na vida concreta.

Como seres conscientes e capazes de criar cultura, podemos modificar nossa cultura diária, escolhendo criteriosamente as palavras que melhor expressam a emoção que queremos sentir, em vez de reproduzir continuamente as palavras e as emoções que nos são lançadas incessantemente pela mídia, pela propaganda, por nossos conviventes. Para Maturana, “só uma nova modificação na configuração de nossos desejos, em nossa coexistência, pode nos levar a uma transformação que nos tire do patriarcado. E ela só nos poderá acontecer agora, se assim o quisermos.”

O que precisamos fazer para criar esta nova cultura? Primeiro e acima de tudo, precisamos substituir a atual abordagem em que predomina o cérebro e enfatizar a senda do coração, em nossas interações com o mundo. É “um caminho fundamentado mais em sentir a energia que ressoa dentro de todas as pessoas e de tudo, do que na incessante tentativa de subjugar e controlar coisas, pessoas e o cosmo”, escreve Paul Pearsall em Memória das Células.

Assim, iremos restaurar gradualmente a cooperação, para contrabalançar a competição. Enfatizando o pensamento intuitivo, com sua ênfase na experiência direta, sintética, podemos complementar o pensamento racional, linear, analítico, fragmentado. Desenvolvendo uma visão ecológica em relação ao mundo, podemos substituir a atitude egocêntrica, que tem caracterizado nossa utilização dos recursos naturais, e suas consequências nefastas.

Em recuperando as características do princípio feminino representado pela Deusa, recuperamos a sensação de ser parte integrante do mundo vivo, em que o agir, sentir e pensar de cada um/uma de nós faz toda a diferença. Assim, criamos um mundo mais em consonância com aquilo que realmente queremos para nós e para todos, do mais profundo do nosso coração.

Monika von Koss em maio de 2011