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A Criatividade e o Mar Escuro da Consciência>>

“A grande jogada da vida não é saber, mas mergulhar no mistério”, Fred Alan Wolf

”A consciência é a experiência do experienciar, o conhecimento do conhecer, a sensação do sentir”, escreve Tor Norretranders em The User Illusion, um livro fascinante, em que ele aborda o resultado de pesquisas realizadas nas ultimas décadas e que põem em cheque nossas concepções a respeito da influência que nosso consciente tem em nosso comportamento e em nossa apreensão da vida.

Diversos estudos têm comprovado aquilo que sabemos organicamente, ou seja, que experienciamos muito mais do que percebemos conscientemente. A cada segundo somos inundados por milhões de bits de informação, dos quais processamos de forma consciente apenas uma pequena parcela, que possui quase nenhuma informação. A imensa quantidade de informação que é descartada forma um borrão holográfico, que se localiza no plano de fundo da nossa mente, no que denominamos de inconsciente. Esse borrão contém toda a informação que desapareceu ao longo do caminho da conscientização, formando um lastro para aquilo que sabemos conscientemente. Quanto mais material descartamos, escreve Norretranders, mais profundidade tem nosso saber.

Como um fenômeno que apenas pode ser experienciado de dentro, a consciência é absolutamente subjetiva. Podemos partilhar informação, mas cada pessoa tece um conjunto diferente de significados, construindo seu mapa pessoal do mundo em que transita. E quando reconhecemos uma parte do nosso mapa pessoal no mapa de alguém outro, temos aquela sensação maravilhosa de identificação, de encontro de almas.

Isto é possível, porque todos bebemos da mesma fonte de saber, fonte esta que já foi chamada de ‘O Mar Escuro da Consciência’. Construo meu próprio mapa, minha própria esfera consciente, a partir das inúmeras experiências que tenho ao longo das encarnações, mas todas elas estão enraizadas na Teia Cósmica, se originam deste imenso tecido vivo que constitui o universo e que se dobra e desdobra num movimento holonômico contínuo, de acordo com o físico David Bohm.

Cada pessoa cria seu próprio mundo consciente a partir de partículas de saber oriundas do Mar Escuro da Consciência, este lugar em que, nas palavras do físico escocês James Clerk Maxwell, o Eu repousa em segredo, até o momento do fluxo de ação consciente trazer à tona poderes e pensamentos até então desconhecidos. Maxwell se despediu da vida com a frase: “Aquilo que é feito pelo que é chamado de Eu, eu sinto, é feito por algo maior em Mim”.

Escreve Norretranders que “a função do cérebro e do sistema nervoso é nos proteger de sermos avassalados e confundidos pela quantidade de conhecimento em grande parte inútil e irrelevante, excluindo a maior parte do que perceberíamos ou lembraríamos a cada momento, deixando apenas uma seleção muito pequena e especial que é de utilidade prática”. Mesmo assim, é possível lembrarmos tudo que nos aconteceu ao longo das vidas e perceber tudo que está acontecendo no universo a cada momento. Mas, para isto, precisamos mergulhar no Mar Escuro da Consciência.

Enquanto nossa esfera consciente trabalha com pouca informação, nossos sentidos digerem enormes quantidades de informação, da qual nunca nos tornamos conscientes. Apesar disto, esta imensa quantidade de informação, descartada pelos nossos sentidos depois de escaneada, exerce influência significativa em nosso comportamento e em nossa compreensão do mundo. Para que uma experiência possa ser processada e se tornar consciente, é preciso que ela seja colocada em um contexto, pois somente assim ela adquire um significado que é, estritamente falando, individual. Contudo, quando um grupo de pessoas partilha repetidas vezes a mesma experiência, ela adquire um significado comum, que possibilitará o reconhecimento imediato desta experiência, já contextualizada. A isto chamamos de cultura, saber consensual, visão de mundo, conjunto de crenças e valores, ou seja, tudo aquilo que partilhamos com nosso grupo de referência, seja ele a família, a tribo, a nação.

Captamos o mundo à nossa volta por meio da sensação: vemos, ouvimos, cheiramos, tocamos, degustamos aquilo que nos envolve. Mas nem tudo que captamos pela sensação constitui experiência consciente, pois esta se forma apenas quando lhe conferimos significado e contexto. Portanto, quando damos um significado às nossas sensações, estamos criando uma ilusão: sentimos um estímulo de fora e o experienciamos de acordo com nossa imagem interna. Mas esta ilusão não é destituída de realidade, pois ela ser origina de um contato com o mundo: ilusão é apenas o significado que lhe damos. Contudo, esta ilusão é o ponto central da nossa consciência, pois nos possibilita experienciar o mundo de um modo significativo, interpretado. Assim, apesar da consciência ser profundidade, ela é experienciada como superfície. Nas palavras do físico americano Henry Stapp, “o universo pleno consiste de uma camada de verniz extremamente fina, com propriedades diretamente observáveis relativamente lentas, que descansam em um vasto oceano de propriedades não observáveis flutuando rapidamente.”

Experienciamos apenas uma fração dos estímulos que nos atingem, a fração que faz sentido e se insere no contexto de nossas vivências acumuladas. Pelo fato das diferentes sensações, que captamos de um mesmo objeto ou situação, em um determinado momento, através dos vários sentidos, possuírem tempos diferentes de assimilação, é somente quando todos os pontos de contato estão sincronizados que tomamos consciência do objeto ou da situação, isto é, criamos a ilusão que dá significado ao que percebemos. E para que possamos formar uma imagem significativa do mundo à nossa volta, a consciência precisa de um tempo: meio segundo entre o estímulo e a conscientização.

Parece pouco, mas é o suficiente para reagirmos de acordo com nosso registro mental, os padrões comportamentais que adquirimos ao longo do viver. E se é neste intervalo de meio segundo que decidimos como reagir diante da vida, este é o tempo que temos para sair dos automatismos comportamentais e reformular nossas atitudes, nossas reações, nossas crenças. Pode parecer pouco, mas é suficiente. Apenas precisamos estar atentos, respirar antes de agir, contar até dez. Às vezes até mil! Devemos manter nossa atenção no presente, suspendendo por um instante o que sabemos a respeito, para olhar com os olhos da criança interior, aquela que vê todas as coisas pela primeira vez.

Quando questionamos nossas atitudes repetitivas diante das diferentes situações da vida, começamos a perceber o mundo de modo diferente. Mas não estamos mudando a realidade exterior, estamos mudando a forma como percebemos a vida, como pensamos sobre ela, como reagimos às situações. E isto faz toda a diferença, pois alteramos a configuração da nossa esfera de consciência, o mapa que fizemos do mundo, nossa realidade pessoal, simulada e ilusória. E ao mudarmos o contexto, mudamos o significado das nossas experiências. Todos os significados, afirma o físico indiano Amit Goswami, já estão em nós, apenas precisamos acessá-los. Quando deslocamos o foco de nossa consciência de um ponto a outro, alteramos a realidade percebida, pois a consciência é cósmica, ou seja, não-local e interconectada. Nossos sentimentos e pensamentos são apenas as ondas quânticas que escolhemos, entre as infinitas possibilidades. Assim, a qualquer momento posso escolher outra onda quântica, modificando minha percepção e, em decorrência, minha reação ao mundo.

A isto chamamos de potencial criativo do ser humano. O potencial criativo não é conteúdo, mas contexto. Trata-se mais de uma atitude diante da vida, do que de qualquer habilidade específica. Todas as pessoas são potencialmente criativas. O que limita nossa criatividade é um contexto fixo e automatizado em que nos movimentamos e que pré-determina nossas atitudes. Para a maioria de nós, este contexto foi fixado ao longo do nosso desenvolvimento, dependendo de como a vida nos foi apresentada e quais as experiências que nos foram proporcionadas. Criamos um mapa mental e nos movimentamos no interior de seu perímetro, como se fosse toda a realidade que existe. Limitamos nosso contexto. E quando damos sempre as mesmas respostas, estamos limitando nossa criatividade que consiste, simplesmente, na capacidade de dar novas respostas a situações antigas.

Alterar nossa percepção do mundo e o modo como reagimos a ele não significa abrir mão de tudo que aprendemos até aqui. Nem precisamos mudar radicalmente nossa vida e nossas crenças. Bastam muitas pequenas atividades e atitudes, para transformar significativamente nosso estar no mundo. Precisamos mergulhar no Escuro Mar da Consciência e beber diretamente da fonte de criatividade cósmica.

Parece simples e fácil, mas não é. Tendo em vista que o ato consciente de observação é o fator principal na formação da realidade, mudar nosso foco de observação requer atenção e presença em tudo que fazemos, requer questionar o significado que atribuímos aos eventos do mundo. Significa mudar nossa perspectiva a cada momento, para viver cada experiência como se fosse a primeira vez. Precisamos abrir mão de quem pensamos que somos, para nos tornarmos quem somos verdadeiramente – centelhas divinas!

Monika von Koss em maio de 2011