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Ki-Ninhursaga-Inanna>>

Transformações da Deusa Mãe Terra na Mesopotâmia>>

Aflorando nas montanhas da Armênia, dois cursos d’água seguem trajetórias distintas em direção ao sul, encontrando-se para desaguar no Golfo Pérsico, formando a região designada pelos gregos de Mesopotâmia: entre rios.

O maior deles, conhecido como Eufrates, desce pelas corredeiras em majestosa dignidade, deslocando-se calma e morosamente até as planuras, acolhendo as águas dos muitos tributários que se juntam a ele ao longo do caminho.

Rápidas e turbulentas, as águas do outro rio, chamado de Tigre, forçam sua passagem por fendas escarpadas, incrementando a força de sua correnteza com o acréscimo de outros rios que fluem para dentro dele.

Percorrendo as vastas planuras que se estendem entre os contra-fortes das Montanhas Zagros a leste e o pedregosos deserto arábico a oeste, nos tempos antigos estes dois rios desaguavam separada-mente no Golfo Pérsico, formando um delta pantanoso abundante em juncos, hoje inexistente em parte devido ao depósito de solo aluvial trazido pelos rios, em parte, pela intervenção humana.(1)

Há indícios da presença humana nestas paragens férteis entre os rios, desde pelo menos 10 mil anos. Designados de ubaidianos, pelo fato da evidência arqueológica ter sido descoberta em uma pequena colina conhecida como al-Ubaid, localizada a meio caminho entre as montanhas ao norte e o golfo ao sul, tudo que sabemos a seu respeito vem permeado pela influência dos sumérios, pastores nômades que parecem ter vindo das regiões montanhosas a leste por volta do quarto século antes do tempo comum, trazendo consigo seu deus maior, Enlil, o poder inflexível dos ventos tempestuosos e úmidos da primavera, que sopram das montanhas e cuja voz é ouvida no trovão.

Na colina de al-Ubaid, localizada perto da antiga cidade de Ur, foi desenterrado um pequeno templo dedicado à deusa-terra Ki, mãe do solo pedregoso e da terra cultivada, que nutre a semente e espalha suas bênçãos entre os seres humanos.

O ciclo das águas, que caracteriza o clima da região entre os rios, se inicia na primavera com as tempestades nas montanhas, seguidas de copiosas chuvas que trazem consigo solo aluvial, depositado nas áreas adjacentes pelo transbordamento dos rios. Quando as águas retrocedem, revelam campos férteis, próprio para o cultivo.

E do solo pedregoso, fertilizado pelas águas doces trazidas por ação das tempestades e dos ventos que ocorrem entre o deserto e os contrafortes, crescem árvores, plantas, minerais e a vida selvagem nativa. São os presentes da mãe-terra que amadurecem e se propagam durante o verão quente do deserto, sustentando a vida de todos aqueles que a cultuam como a Grande Mãe.

Apesar das condições climáticas desta região não terem se alterado muito ao longo dos últimos milênios, a fertilidade do solo se deteriorou significativamente, depois que os pastores desceram das montanhas e se fundiram com os agricultores na planície.(2)

Este encontro de duas culturas e concepções de mundo diferentes é narrado na mitologia sumeriana como um ato sexual: Enlil, o vento em forma de touro, copula com os contrafortes em forma de vaca, concebendo o verão e o inverno. As águas da inundação, que descem com estrondo pelas encostas, são equiparadas ao sêmen ejaculado pelas montanhas orientais para os contrafortes (hursag); e por terem sido ejaculados durante um defloramento, são vermelhas da cor do sangue.(3)

Como resultado desta fusão de culturas, Ki, a deusa-terra da então fértil planície arábica, representada como serpente, passa a ser designada de Ninhursaga, a Senhora dos Contrafortes, a vaca selvagem, de cujo leite se nutriram os primeiros regentes sumerianos. Originalmente mãe dos animais selvagens nativos da região, ela passa a ser também a mãe dos animais do rebanho. E como a mãe de todos os seres viventes, ela também é conhecida como Nintur, a “Senhora da Cabana do Parto”:

"Ninhursaga, sendo excepcionalmente grande / Faz o útero contrair / Nintur, sendo uma grande mãe / Inicia o dar à luz."(4)

Na Mesopotâmia, a terra e a água são duas forças fundamentais para a vida, que se manifestam de formas distintas. O solo pedregoso que precisa ser fecundado pelas águas frescas para produzir seus frutos é uma presença constante. A água doce, por seu lado, às vezes é abundante, outras vezes escassa. Este embate contínuo entre a terra e a água é expresso, na mitologia sumeriana, como a oposição entre Enki, o senhor das águas doces, e Ki-Ninhursaga, a mãe-terra.

A história intitulada “A Terra de Dilmun”, fala da terra pura e luminosa dos seres que não conhecem doença nem morte. O que falta, contudo, é água fresca, necessária para os animais e as plantas. Por isto, Enki ordena ao deus-sol que faça afluir água da terra. E, assim, Dilmun se transforma em um jardim divino, um lugar verdejante, com pomares repletos de árvores frutíferas e campos floridos, a realização conjunta de Ninhursaga e Enki.

É neste paraíso dos deusas que, da Grande Mãe Ninhursaga, fertilizada por Enki, nasceu a Senhora Planta. Por sua vez fertilizada por Enki, dela nasceu a Senhora das Montanhas. Desta, também fertilizada por Enki, nasceu a deusa da tecelagem. Todas as três gerações de deusas nasceram sem dor ou esforço.

Mas quando a deusa da tecelagem também foi impregnada por Enki, Ninhursaga veio em seu auxílio e extraiu o sêmen de Enki do corpo dela e com ele fez nascer oito plantas. Desejoso de provar o sabor destas plantas, Enki as colhe e come uma a uma, despertando a ira de Ninhursaga, que lhe decreta a maldição da morte e desaparece de entre os deuses.

Não demora muito e a saúde de Enki começa a declinar. Oito de seus órgãos adoecem e a sede se instala entre as divindades. Então uma raposa se oferece para convencer Ninhursaga a voltar. Seguindo seu impulso maternal, ela retorna e acomoda Enki perto de sua vulva, trazendo à luz oito deusas-plantas de cura, cada uma correspondendo a um dos órgãos doentes de Enki. Este então recupera sua saúde e a ordem natural é restaurada.(5)

Apesar das inúmeras tentativas de Enki para suplantar a deusa-mãe, escreve Jacobsen, ela nunca perde sua dignidade, tendo-se a impressão de que ela permanece, no final das contas, uma divindade mais nobre e poderosa do que ele.(6)

Mas, como aconteceu com todas as grandes deusas, à medida que a cultura dos pastores passa a predominar, a grande mãe se fragmenta e recua, para ceder seu lugar às suas filhas e netas. Seu aspecto mais antigo é relegado ao submundo e seu aspecto luminoso realiza o casamento sagrado, legitimando a regência masculina do mundo.

Na mitologia sumeriana, vamos encontrar este aspecto luminoso da deusa como a jovem Inanna, vestida de céu e coroada de estrelas, cujas jóias de lápis lazuli refletem o azul celeste e o azul das profundas águas cósmicas. Vestindo o arco-íris como colar e o zodíaco como cinto, ela porta em sua cabeça os cornos lunares, que a proclamam como descendente da antiga deusa que originalmente regia o céu, a terra e o submundo. E como grande deusa, quando ela fica irada, seus rompantes não são apenas tempestuosos, eles são a própria tempestade, com os trovões fazendo céu e terra tremerem e os relâmpagos queimando e destruindo tudo.Como deusa da fertilidade, ela é a fonte do sangue vital da terra. “Eu piso nos céus e a chuva cai / Eu piso na terra e a grama e as ervas brotam" (7) canta Inanna. E neste sentido, é chamada de “A Verde”, segundo o ondulante cereal verde que a terra veste como manto na primavera.

No centro de sua mitologia encontramos o casamento sagrado, o festival mais importante da Suméria e que marcava o início do ano. Como rainha do solo, ela fazia de cada rei seu noivo. Mas sua história também revela o encontro entre as duas concepções distintas de mundo. Como uma deusa lunar, ela inicialmente se recusa a seguir a orientação de seu irmão solar, que lhe sugere o casamento com Dumuzi, o pastor."Não, irmão! / O homem do meu coração trabalha a enxada. / O agricultor! Ele é o homem do meu coração! / Ele reúne o grão em grandes fardos. / Ele traz o grão regularmente para o meu armazém.” (8)

Mas ela não tem como resistir, de modo que finalmente a encontramos como a deusa que realiza e representa a fusão entre estes povos, desempenhando um papel maior que qualquer outra divindade masculina ou feminina nos mitos, épicos e hinos da Suméria.

Como a rainha com quem se realiza o casamento sagrado, Inanna encontra seu amado no portal, para admiti-lo junto com seus servos, que trazem suas dádivas, uma abundância infinita de frutos de todo tipo. Acolhendo o rei na doçura de seu regaço, ela lhe transmite os poderes de fertilidade e liderança, imprescindíveis para sua regência.

Quando Dumuzi é introduzido no leito de Inanna para o casamento sagrado, a serva dela canta:

"Que o agricultor torne os campos férteis  /  Que o pastor multiplique o rebanho / Sob seu reino, que haja vegetação  /  Sob seu reino, que haja abundância em grãos  /  Nos pântanos, que haja peixes e aves  / No mangue, que cresça alto o junco novo e velho / Na estepe, que cresçam altas as árvores mashgus  / Nas florestas, que se multipliquem os veados e cabras selvagens  /  Nos pomares, que haja mel e vinho  /  Nas hortas, que haja alface e rúcula  /  No palácio, que haja vida longa /    Que a água transborde no Tigre e Eufrates  /  Que as plantas cresçam altas nas ribanceiras e cubram os campos  / Que a Senhora da Vegetação amontoe os grãos. / Oh minha Rainha do Céu e da Terra  / Rainha de todo o universo / Que ele usufrua longos dias de doçura em teu regaço sagrado." (9)

Monika von Koss em setembro de 2009

 


(1) Morris Jastrov, Jr.The Civilization of Babylonia and Assyria, p.5/6

(2) Michael Baigent, From the Omens of Babylon, p.23

(3) Thorkild Jacobsen, The Treasures of Darkness, p.131

(4) Jacobsen, p.108

(5) Jacobsen, p. 113

(6) Jacobsen, p.112

(7) Jacobsen, p. 136

(8) Diane Wolkstein, Inanna. Queen of Heaven and Earth, p.32

(9) Diana Wolkstein, Inanna. Queen of Heaven and Earth,, p.46/47