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 Eu separatista e consciência heróica>>

Para criar um futuro mais harmonioso conosco, com os demais seres humanos e com todo o planeta, precisamos recuperar nosso sentido de conexão, o sentimento de estarmos todos juntos numa mesma jornada em direção a um futuro de bem-estar para todos. Para alcançar isto, certamente não precisamos abrir mão de nosso sentido de individualidade, mas aprender a viver esta individualidade inserida em uma coletividade.

A vivência espiritual dos nossos ancestrais, quer a designemos de mito, superstição, totemismo ou outros termos derrogatórios, se baseava em um sentimento de profunda conexão com o universo, gerando uma sensação de eternidade, um sentimento de algo ilimitado, sem fronteiras – um sentimento oceânico.

Com base neste sentimento oceânico, surgiram as primeiras cosmogonias que falam de uma extensão ilimitada e informe de massa aquosa, existente antes que o mundo tivesse sido formado. Este oceano primordial, que contém e envolve toda a vida, era entendido como a grande mãe, o contexto que conectava todos os seres minerais, vegetais, animais e humanos.

Quando primeiro emerge a consciência humana e cada pessoa se percebe como uma individualidade, esta ainda tem uma característica profundamente grupal. Cada indivíduo é parte de um grupo, está diretamente conectado com seus ancestrais, com a sociedade dos vivos e dos mortos, com a montanha, o mar, o rio, a nascente, a árvore.

Esta consciência tribal, escreve Caroline Myss em Anatomia do Espírito, é a energia do chacra de raiz, que contém nossa conexão com toda a vida e traz a mensagem de que “cada escolha que fazemos e cada crença que sustentamos exerce influência sobre a totalidade da vida”. É a energia que nos enraíza na vida terrena, estabelecendo nosso fundamento para uma vida sustentável.

O que caracteriza esta primeira identidade é sua fluidez e permeabilidade; trata-se de um eu conectivo e conectado, afim com todos os demais elementos do mundo, com os quais está em um processo incessante de interação.

Este modo de estar no mundo prevaleceu por um longo período, em que a vida social girava em torno da imagem materna, como atestam as figuras cerimoniais da deusa matrística em suas várias formas que, no dizer de Humberto Maturana em Amar e Brincar, são “um lembrete e uma evocação do reconhecimento da harmonia dinâmica da existência.”

Ao longo da evolução humana, escreve Fritjof Capra em A Teia da Vida, a capacidade de abstração criou um “mundo interior de conceitos, de objetos e de imagens de nós mesmos” que, gradualmente, nos levou a “perder contato com a natureza e a nos transformar em personalidades cada vez mais fragmentadas”.

Quando olhamos para a longa jornada da humanidade desde suas origens primatas, podemos reconhecer o surgimento desta cisão no Ser, desta separação entre quem vê e o que é visto. Na transição entre a Idade da Pedra e a Idade do Bronze, em torno de 3000 a 1500 anos antes do tempo comum, surgem os mitos heróicos, com sua ênfase em indivíduos que se destacam do grupo por sua ação e qualidades únicas. Quando um indivíduo acumula poder e se apresenta como divino, coloca-se acima dos demais e passa a dominá-los. Inicia-se a chamada era heróica, cuja conseqüência psicológica é a emergência do sentido de individualidade.

Mas quando o poder passa a ser igualado com a capacidade de controlar e manipular o mundo e as pessoas, gera uma sensação de força, uma ilusão de invencibilidade, que deixamos de perceber como seus efeitos se voltam contra nós. Quando o sucesso se torna uma vantagem individual, o preço a pagar por ele é elevado! Desenvolvendo poder ou domínio sobre algo, nos colocamos contra aquilo que queremos controlar, nos colocamos contra as pessoas, os eventos, o meio-ambiente ou nossa própria natureza – nos separamos!!

A cisão em consciência, que está na base do desmembramento da deusa e a repressão de suas qualidades, dá origem à formação de uma instância psíquica que denominamos de ego – aquilo a que me refiro quando aponto para mim mesmo. Mas, quando me nomeio, estou realizando uma ação reflexiva que, em si mesma, já contém uma divisão e é diferente de uma consciência não-reflexiva, relacionada ao fenômeno da pura atenção. Este é o modo primário de consciência, que está presente em todos os vertebrados superiores, conforme revelam os estudos avançados sobre a consciência. A percepção consciente precede qualquer divisão do Ser em um ego separado e um objeto externo, não podendo ser ele próprio um objeto para si mesmo.

Quando um indivíduo acumula poder e se coloca acima dos demais, a conseqüência psicológica é a emergência do sentido de individualidade absoluta. Esta idéia de separatividade, que fundamenta nossa concepção moderna de identidade, demanda um esforço contínuo para sua manutenção. Para se convencer de sua existência, afirma Pierre Weil em A neurose do paraíso perdido, este eu separado está em constante luta com seu meio exterior e precisa matar seu próximo. Para ele, esta fantasia de separatividade engendra a neurose do paraíso perdido e está na raiz da insatisfação humana.

A idéia de individualidade absoluta, tão valorizada no mundo ocidental, já contém, em sua própria definição, uma dicotomia. Como um ser auto-reflexivo, o ser humano se define pela sua imagem refletida: um Ser dividido entre aquele que vê e aquele que é visto. A capacidade reflexiva é como uma lâmina opaca que divide a consciência, escreve Catherine Keller em From a broken web. Diferente do vidro translúcido, que permite ver o que está além, o espelho opaco apenas reflete o que está diante dele.

A experiência do herói está na origem do que mais tarde se configurará como a instância egóica auto-consciente e separatista, que Freud, em O Mal-estar na Civilização, define como algo “autônomo e unitário, distintamente demarcado de tudo o mais”. Freud não inventou o ego separatista, ele apenas o descreveu em termos psicológicos, a partir da experiência com seus pacientes. Mas, apesar de reconhecer que este ego nitidamente separado do mundo exterior, com limites e fronteiras claramente demarcadas, é apenas uma ilusão, uma fachada que desmorona quando nos apaixonamos por exemplo, ele estabelece os padrões separatistas deste mesmo ego como norma, e tudo que não se conforma a eles passa a ser considerado patológico.

A realidade egóica, tão valorizada, contudo, nada mais é do que uma parte separada da totalidade. A realidade definida através do ego é apenas um resto atrofiado de algo mais amplo e mais abrangente, que só pode ser apreendido por meio de uma conexão íntima com o meio circundante. Como o próprio Freud reconhece, na ausência de condições apropriadas, o ego, esta consciência separada que se desenvolve a partir de um germe presente no inconsciente, pode não emergir plenamente da condição uterina, do sentimento oceânico que ele define como a simbiose narcisista com a mãe-nutriz, a condição original de qualquer ser.

Em seu trabalho sobre a formação do ego separatista, Keller pergunta “como seria se o continuum original do qual todos emergimos, quer o chamemos de pré-edípico, narcisista, oceânico ou empático, não tivesse sido nem despedaçado nem reprimido, mas expandido e transformado?” O que teria acontecido, se a concepção de mundo como uma teia interconectada de toda vida tivesse “amadurecido para uma gradual diferenciação e modulação do contínuo empático?”

Se nas eras arcaicas encontramos os seres humanos em contato íntimo com as forças da natureza e dos animais, isto não significa que não tivessem um sentido de identidade ou que não diferenciassem entre si próprios e o seu meio-ambiente. Mas a relação que estabeleciam era de influência mútua. Influência, isto é, ‘fluir para dentro’, significa permeabilidade. Quando o outro flui para dentro do eu, então o outro está imanente no eu; um ser no interior de outro ser, estabelecendo uma relação interna, íntima.

Quando este outro que flui para dentro do eu é sentido como intruso, quando não se estabelece uma relação interna entre eles, estamos diante de um ego defensivo, que se sente ameaçado em sua auto-delimitação. Para manter este outro fora, surge o isolamento psíquico, a negação egóica do fluxo de influência que o penetra. Se não é possível manter algo fisicamente distante, é possível isolá-lo psiquicamente, um procedimento que se provou mais eficaz que qualquer ação concreta e, por isto, encontrou seu lugar no desenvolvimento psíquico humano.

O ego é, antes de mais nada, uma estrutura defensiva. A única possibilidade de contornar a intrusão é se apropriar do outro. É apenas submetendo e possuindo o outro que o sentido de ego como algo absolutamente separado e independente pode ser mantido. Assim, possuir e subjugar substitui a falta de relações imanentes, um sentido de conexão íntima com o mundo. Mas é uma substituição ilusória, razão pela qual o herói necessita sempre de novo iniciar sua jornada.

Para Freud, a cultura se desenvolve como uma luta entre Eros e Morte, entre o impulso para a vida e o impulso para a destruição. Partindo do pressuposto de que nos tempos primordiais a agressividade dominava sem restrições, sendo a base para todas as relações afetivas (com exceção, ele sente a necessidade de dizer, talvez da relação entre a mãe e seu filho homem, o que parece apontar para a dificuldade dele próprio lidar com a agressividade na sua relação materna), o recurso psicológico mais poderoso para dar conta desta agressividade consiste em introjetá-la. Mas a idéia da introjeção é muito diferente da permeabilidade que possibilita a imanência. Significa tomar posse e dirigi-la para dentro, para o mesmo lugar de onde ela surgiu, agora como algo estranho, algo que vem do exterior. Neste processo, ela se volta contra o próprio Eu que a originou, sentida agora como algo separado, diferente, intruso, ameaçador.

Mitologicamente, isto se manifesta nos relatos de como o herói derrota a deusa, transformada então em monstro representativo das forças demoníacas do caos, entendidas como o mal que ameaça a integridade individual. O exemplo mais explícito é o mito babilônico em que Marduk derrota Tiamat, para transformá-la na base sobre a qual constrói uma nova ordem, em que ele próprio reina absoluto.

É evidente que o herói apenas poderia ser um filho da deusa. Como qualquer ser vivente, nosso corpo possui o registro da experiência de estar contido em outro ser, que é sempre nossa mãe. Como habitante da terra, estamos contidos no ser maternal Gaia.

Quando uma mãe se separa de sua cria, ela se separa de uma parte de si mesma, com a qual permanece conectada mesmo depois da separação. Uma filha-mulher segue o mesmo caminho da mãe e ao engravidar renova a experiência de conter algo em si mesma e que sempre será uma parte dela, como ela é parte da mãe. Mesmo que uma mulher não se torne mãe biológica, sua experiência sexual é a de receber o outro dentro de si. Assim, pela nossa própria experiência, tememos menos a in-fluência de outro ser em nós, o que nos torna mais permeáveis, mais abertas para a imanência.

Para os filhos-homens se diferenciarem de sua mãe, eles precisam se diferenciar de algo que os contém e do qual são parte. Pelo fato da virilidade ser definida como impermeabilidade, o herói construiu sua auto-identidade pela vitória sobre os valores e demandas do contexto feminino do qual emerge.

Assim, quando vai em busca de sua identidade – pois este é o objetivo da jornada de todo herói – ele precisa deixar para trás o feminino, seja a mãe, a irmã, a esposa, a infância. O herói vai em busca de auto-afirmação, de valorização, de fama, e seu primeiro ato criativo de liberação é o matricídio.

Quando nos debruçamos sobre os mitos heróicos, podemos identificar em todos eles uma ordem anterior, ordem esta definida da perspectiva do herói como caótica, bárbara, monstruosa, selvagem, demoníaca. Uma ordem na qual reina soberana a deusa e o feminino. A nova ordem instaurada pelo ato heróico, por sua vez, se fundamenta e enraíza nesta ordem, gerando o que Joseph Campbell, em As Máscaras de Deus, chama de uma “duplicidade essencial que não pode ser desconsiderada ou suprimida”, a fonte da sensação de medo, de ameaça, que motiva o psiquismo do herói, e que apenas pode ser vencida pela destruição do monstro, mesmo que seja temporariamente.

Mas a monstruosidade da deusa e o heroísmo da virilidade, afirma Keller, se estabelecem no mesmo ato, no exato momento em que o herói mata o monstro, que não é outra coisa senão um aspecto reflexo do próprio herói, aspecto do qual ele tenta se separar. Separada e emancipada uma parte da consciência total, o ego se torna o herói. Definindo-se a consciência separada como masculina, tudo que é suprimido passa a ser definido como inconsciente e feminino.

Este feminino que é deixado para trás permanece na espera, resistindo e mantendo o familiar, o berço, a terra, o país, o reinado. A libertação do herói significa o aprisionamento do feminino em uma condição imutável. Mas, como psicologicamente só podemos conhecer aquilo que experimentamos concretamente, caso contrário nos movimentaremos em um mundo de pura abstração mental, palavras vazias, sem lastro afetivo, o ego heróico é muito mais um ego separatista do que um eu separado. Ele se origina da dúvida a respeito de sua própria existência e não de um profundo sentimento de ser. Assim, diz Keller, “o herói arquetípico molda a personalidade humana em sua própria imagem, projetando um ego armado contra o mundo externo e as profundezas internas.”

Enquanto o ego separatista, exemplificado pelo herói, se defende contra o mundo externo e interno, o eu narcisista é um eu solúvel, simbolizado pela relação primordial com a mãe, uma relação de fusão e indiferenciação, sugerida pela metáfora do oceano, cujos limites aquosos se modificam continuamente. Imagens de deusas, górgonas, sereias e outras figuras femininas de poder pré- patriarcal parecem ser resquícios da experiência oceânica do eu ampliado, uma vez que o eu solúvel se dissolve na relação, diferente do ego separatista que se faz absoluto, ao se absolver da relação.

É a incapacidade de penetração íntima que motiva a conquista fálica e preserva um narcisismo agressivo, seu próprio reflexo introjetado. E apesar de sair em busca de si mesmo, o herói sempre retorna para o lugar de onde partiu, pois é lá que se encontra sua verdadeira identidade. A própria jornada heróica é ilusória, pois ela consiste na separação de um aspecto do verdadeiro eu – o ego desconectado – que parte em busca daquilo que deixa para trás.

Com a internalização da estrutura social opressiva, na qual prevalece a dominância masculina, o ego heróico se configura como um complexo psíquico a partir do qual a máquina é acionada. “Colocar um herói no centro da busca de si mesmo é como instalar um guerreiro dominador e intransigente no controle da psique de cada um de nós, mulheres e homens sem distinção”, escreve Daniel C. Noel, em Espelhos do Self.

Se o senso masculino básico de eu é de separação, o senso feminino de eu é o de conexão com o mundo. Dizer que o eu da mulher é solúvel, é afirmar que ela é menos individualizada, menos amadurecida, menos civilizada. Mas a solubilidade que representa a condição da mulher no sistema patriarcal não precisa necessariamente significar menos individualidade ou diferenciação, pode simplesmente se referir a uma outra ordem de diferenciação. Para Keller, “não é claro que o senso feminino de conexão com o mundo precisa ser superado em favor de um senso rígido de limites, sobre o qual o poder secular tem sido baseado até então.” Acredita ela que o contínuo empático do qual emergimos pode conter seu próprio princípio de diferenciação e auto-transformação. Uma diferenciação natural e gradual pode levar a resultados diferentes do resíduo atrofiado da realidade criada pelo ego separatista, pela capacidade de assimilar e incluir aspectos que são diferentes de si próprio.

Se o que impulsiona o ego separatista é a necessidade de dominar e submeter o outro para manter sua própria identidade separada, a defesa masculina poderia ser substituída pela confiança em uma influência não coercitiva, quando então o poder sobre o outro poderia ser abandonado em favor da recuperação de um perdido sentido de relação com o outro.

Para tanto, afirma Keller, “o sentido de identidade conectiva do período pré-edípico precisa ser cultivado até a maturidade e não ser evitado ou sobreposto, apesar da ameaça de um narcisismo indiferenciado”, possibilidade esta que foi desenvolvida por Heinz Kohut em sua Psicologia do Self. Ele argumenta que o sentimento oceânico (conhecido como narcisismo primário), pode ser transformado nas habilidades humanas maduras como a criatividade, a empatia, o humor, a sabedoria, que surgem não da dependência e da necessidade, mas de um sentido de eu forte em si mesmo.

Enquanto a noção masculina de ego tem sido estimulada e formada pelas incontáveis histórias de heróis e deuses, sendo que “suas mais profundas histórias os orientam para o que eles percebem como poderes e realidades últimos do universo”, escreve Naomi Goldenberg em Changing of the Gods, as mulheres têm sofrido uma desvantagem imensa, por não terem tido a permissão para ouvir suas próprias histórias de poder. Sem conexão com sua linhagem materna, as mulheres são almas perdidas, afirma ela.

Nossa tarefa consiste em recuperar nossas almas e histórias, para o bem comum. Escreve Clarissa Pinkola Estés em Mulheres que correm com os lobos, que as histórias são bálsamos medicinais. Bálsamos que ela nos oferece em abundância neste seu livro que não pode faltar no acervo de qualquer mulher – e homem também, porque não? Bálsamos que ajudam a curar a esterilização sofrida pelas mulheres na cultura patriarcal, quando os vínculos com sua fonte de origem foram cortados.

Monika von Koss em julho de 2009